“Dou-te graças, Pai,
Senhor do céu e da terra!” (Mt 11,25)
Sabemos,
através dos evangelhos, que Jesus foi sempre um homem de oração, de intimidade
profunda com o Pai, nos silêncios da noite, nas montanhas, nos desertos...
Nenhum evangelista nos relata o conteúdo da oração nestes momentos de solitude
(solidão habitada).
No
Evangelho deste domingo, Mateus “pega Jesus em flagra” e nos revela não só o
modo como Jesus vivia sua relação com o Pai, mas o conteúdo desta intimidade,
através de palavras carregadas de gratidão, de assombro, de admiração...;
trata-se de um louvor, um canto à vida.
Estes
versículos deixam transparecer um estado de exultação que não nasce de nenhum
estímulo exterior concreto. Nada do que precede justifica o canto que segue.
Brota, sem dúvida, de um estado permanente, cheio de agradecimento assombrado,
que vai mais além de um sentimento momentâneo. É um estado de gratidão que
emerge do seu coração comovido, que nem a traição e o fechamento de cidades
como Corazim e Betsaida são capazes de fazer sombras.
Mateus
reúne aqui vários ditos, que parecem expressar atitudes e sentimentos
característicos do Mestre de Nazaré. E, nesses sentimentos, deixa transparecer
sua verdade mais profunda: a gratidão, a intimidade com o Pai, a proximidade
bondosa para com aqueles que estão suportando fardos desumanos, o convite a
permanecer na mansidão e na humildade, o oferecimento de uma mensagem que é
descanso...
A gratidão parece brotar aos borbotões das
entranhas mesmas de Jesus. Isso não é estranho se temos em conta que, junto com
a compaixão, a gratuidade constitui a coluna vertebral de toda sua mensagem. E
é impossível experimentar gratuidade sem que surja a gratidão.
Quando
tomamos consciência de que tudo é Graça, para além de todas as expressões
superficiais, brota um agradecimento espontâneo, permanente e profundo.
Mas
isso requer uma condição: experimentar-nos em sintonia com a corrente da Vida
que procede do Pai, na qual reconhecemos nossa verdadeira identidade. De fato,
ao reconhecer-nos no fluxo da Vida, em meio a tudo o que acontece, descobrimos
que a gratidão é outro dos nomes de nossa identidade profunda. Na
medida em que cresce a compreensão de nós mesmos, reconhecemos que, vista a
partir do plano espiritual, a gratidão não é simplesmente uma ação ou qualidade
– algo que podemos viver com maior ou menor intensidade -, mas outro nome de
nosso ser original: “somos gratidão”, é da nossa essência mais nobre. Por isso, ao vivê-la
conscientemente, experimentamos comunhão, unificação e plenitude: estamos
vivendo o que somos.
A gratidão é, ao mesmo tempo, um
sentimento e uma atitude admiravelmente terapêuticos, capaz de sustentar o
nosso “tônus vital”. Por um lado, nos afasta do funcionamento da queixa; por
outro, constitui o melhor antídoto frente ao desalento ou o desânimo.
Na
medida em que a exercitamos, ela vai nos transformando interiormente e
enriquecendo nosso modo de viver a relação com os outros. Em certo sentido,
poder-se-ia dizer que ela expande o nosso próprio coração, favorece a alegria
de viver e facilita poderosamente a convivência.
Por
pouco que a observemos, poderemos advertir que a gratidão genuína não depende
tanto daquilo que nos acontece, quanto do modo como recebemos aquilo que
acontece. Se damos graças unicamente quando nos ocorre algo que consideramos “agradável”,
não temos saído ainda de nosso egocentrismo.
A
gratidão autêntica é profundamente unida com a vida, flui com ela. Nasce e se
apoia na compreensão de que, para além dos juízos que nossa mente possa fazer,
no fundo, tudo é graça. A gratidão está intimamente relacionada com a
capacidade de “ver”. Por isso, quando sabemos ver, a gratidão aflora sem
obstáculos.
Pelo
contrário, se permanecemos aferrados às nossas expectativas – “a vida deve
responder ao meu próprio querer, interesse e desejo” -, a frustração inevitável
trará consigo a resistência e o sofrimento, o enfado, a queixa e o vitimismo.
A
gratidão, como força que nos “des-egocentra”, nos faz tomar distância de nossos
pequenos interesses e nos abre à compreensão profunda de que, em último termo,
tudo é dom, tudo é dado, tudo é graça... Somos seres agraciados, “cheios de
graça”.
Como
o amor, como a alegria, a gratidão é uma arte. E, enquanto tal, precisa ser
exercitada em um treinamento cotidiano, no qual, conscientemente, damos graças
por tudo.
Assim
compreendido, poderíamos dizer que a existência inteira de uma pessoa sábia é
vivida entre duas palavras: “agradecido” e “sim”. Por tudo o que aconteceu,
agradecido(a)!; diante de tudo o que virá, sim!
Ao
entrarmos em sintonia com o coração “manso e humilde” de Jesus temos a
oportunidade de recuperar algo que a cultura pós-moderna apagou de nossa
consciência: a capacidade de admiração, a possibilidade do assombro diante de
tantas realidades, simples, mas divinizadas, que nos passam desapercebidas. Custa-nos
muito maravilhar-nos porque não despertamos a capacidade de assombro e de
valorizar tudo o que desfru-tamos, desde o cosmos até pequenos prazeres diários
como tomar um café em boa companhia.
Nosso
contexto social não facilita um contínuo louvor, um “canto à vida”. Basta
repassar o olhar sobre diferentes realidades –
político-econômico-religioso-cultural-ecológico – para nos dar conta da
dificuldade objetiva de sairmos dos trilhos das lamentações e queixas.
Esquecemos muitas coisas porque não as valorizamos até que nos faltem: saúde,
convivência, trabalho, possibilidade de ajudar os outros, a capacidade de
superação das adversidades, a própria vida em si mesma como um campo
maravilhoso no qual podemos nos esforçar para deixar transparecer as melhores potencialidades
de nosso ser...
“Dar graças”, “agradecer”, “louvar” ... é também uma questão de memória. Por isso o Papa Francisco fala com
frequência de “memória agradecida”. Só a “memória agradecida” está em
condições de nos ajudar a entender o sentido, a profundidade e a verdade dos
acontecimentos, das pessoas, da realidade que nos envolve..., pois temos de
adotar determinada perspectiva e certo grau de isenção no julgamento, a fim de
decifrar seu significado. Ela nos distancia estrategicamente dos acontecimentos
para poder captar outro sentido, escondido neles. Eles passam a serem vistos
sob nova luz para serem ressignificados.
Só
a “memória redentora” mobiliza nossos melhores recursos, ativa os sentimentos
oblativos e é fonte de vida espiritual pois continua alimentando ressonâncias
no cotidiano. Re-cordar (visitar de novo com o coração) os benefícios
concedidos por Deus nutrem nosso presente com Sua Santidade e nos desperta para
um futuro novo. Por isso, a “memória agradecida” é o húmus natural de onde
brota a gratidão.
Ao
“fazer memória” dos dons e bens recebidos, brota naturalmente em nosso
interior, o desejo de dar uma resposta generosa e radical ao Deus que é Fonte
de tudo. E é Ele mesmo quem, ao criar-nos gratuitamente no amor, nos ensina a
“sermos gratuitos e gratos”; só a generosidade gratuita do coração de Deus é
capaz de reconfigurar mentes e corações, encorajando atitudes oblativas em nós.
É
a gratidão que ativa em nós o ânimo e a generosidade diante do futuro de nossa
missão. Com isso, a esperança e o entusiasmo por viver vem habitar nosso
interior. Trata-se de um momento tão fortalecedor e jubiloso que estremecemos
reverentes diante do que vivemos e diante do que virá.
Este
é o processo vital que se torna um “estilo de vida”, pois, motiva a busca, desperta o
interesse, faz olhar para frente, cria disposição para a construção de
respostas novas, desperta o desejo de crescer, amplia os horizontes...
Texto bíblico: Mt 11,25-30
Na oração: Em sintonia com o coração de Jesus, cheio(a) de gratidão, sinta-se
convidado(a) a uma leitura orante de todos os sinais do Amor de Deus manifestados ao
longo da história da sua vida, bem como trazer à sua memória todos os bens recebidos ao longo deste tempo. Ponderar com muito afeto tudo o que o
Senhor fez por você, por
meio de muitas pessoas, da sua história passada e presente; como Ele o(a)
cumulou de seus próprios dons e, além disso, continua cumulando-o(a).
-
Marcado(a) pela experiência da oração, deixe emergir a fina percepção de que
tudo é dom de Deus, tudo é Graça, tudo é dado “de graça”. Crie um clima de contínua ação de
graças.
Pe.
Adroaldo Palaoro sj

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