Um
anúncio de uma campanha de evangelização levada a cabo nos Estados Unidos, por
uma organização, sob o mote “He Gets Us”, Foto © He Gets Us.
Sim, esta é a maior urgência para a
nossa Igreja Católica de hoje. Não tenhamos ilusões! Andamos já há alguns anos
em serviços mínimos e apenas em cuidados paliativos. Ainda não tivemos a
coragem de acordar para a vida e para o que é urgente. Estamos fartos de
reuniões e mais reuniões; de encontros; de sínodos; de diagnósticos; de
análises e estudos.
Quando é que teremos a ousadia de
passar para uma verdadeira terapia?
E isto já não passa com uma mera
medicação. É preciso ir ao fundo da questão e fazer uma reforma de fundo. Esta
reforma chama-se nova evangelização. Novos conteúdos e novos meios e métodos.
Deixarmos de ser uma Igreja assistencialista e passarmos a uma Igreja
missionária. Deixarmos uma Igreja meramente conservadora da sua tradição e
passar a uma Igreja de futuro, construindo uma nova esperança para os homens de
hoje. O Evangelho será sempre o mesmo, mas o tempo muda, os contextos mudam e
as sociedades modificam-se.
A
Igreja, como comunidade de crentes e de discípulos missionários têm de
enveredar por outros caminhos.
Deixarmos a concepção duma Igreja
meramente hierárquica, de bispos e padres, para uma Igreja de cristãos
baptizados e todos consagrados a Deus e comprometidos com a acção
evangelizadora da Igreja. Deixarmos a ideia duma Igreja de supermercado onde só
vou quando preciso dum determinado serviço: um baptismo; um casamento; um
funeral. Uma Igreja de consumo consoante os meus apetites e necessidades.
Quando
é que iremos ter a coragem de suspender por uns tempos a administração de
alguns sacramentos e fortalecermos o que já somos enquanto baptizados, casados,
sacerdotes ou religiosos? Uma nova evangelização não é uma cruzada, muito menos
uma ação de arrebatar o maior número de cristãos para a Igreja Católica. É uma
missão de cuidar dos que já fazem parte desta família. De re-evangelizar os que
já são cristãos ou como muitos dizem, católicos não praticantes.
Quando é que vamos ter a coragem, e
sobretudo as dioceses, seus bispos, as paróquias e seus párocos de não se
preocuparem, apenas e só, com as estatísticas para enviar anualmente ao
Vaticano? Quando é que vamos ter a ousadia de percebermos que já não nos
interessa uma Igreja de massas, de multidões, de números? Mas sermos uma Igreja
como o resto de Israel? De sermos uma igreja de catacumbas e não uma igreja de
regalias e mordomias? De abandonarmos uma igreja de militância e de majestosos
templos e catedrais para passarmos a uma igreja de rua, de praça e do mundo dos
homens de carne e osso? De deixarmos os nossos ritualismos litúrgicos, estéreis
e vazios de conteúdo para celebrações mais simples e com ritos mais concretos e
alegres que digam alguma coisa ao comum dos mortais? De deixarmos de ser apenas
uma Igreja de anjos e santos para uma Igreja pecadora, enlameada que grita por
perdão e misericórdia? De termos a determinação de deixarmos esquemas de
catequese baforentos e arcaicos e passarmos a um tipo de formação mais
abrangente e crítica? Repensarmos todo o percurso catequético e as festas da
catequese e seguirmos o caminho duma mistagogia mais apropriada abrangendo
várias áreas do saber? De termos a coragem de refazermos todo o Catecismo da
Igreja Católica que tem uma linguagem demasiadamente tradicionalista e
conservadora para uma linguagem mais contextualizada à realidade social de
hoje? De conseguirmos incrementar novas metodologias pastorais e
evangelizadoras como por exemplo os encontros nos lares familiares; nos prédios
habitacionais; nas ruas e praças públicas; nas universidades; nas escolas e em
tantos outros lugares e espaços que não seja a igreja paroquial? Quando é que
vamos ter a coragem de fecharmos os cartórios paroquiais e sermos nós, padres,
a ir ao encontro das pessoas e das famílias? Preciso de falar com o pároco? Em
vez de ir à paróquia, vou convidá-lo a vir ao nosso lar familiar para falarmos,
convivermos e rezar.
Enfim, ou queremos ou não queremos
incrementar esta urgência de re-evangelização.
Para isso basta coragem e ousadia de
percorrermos caminhos novos, sem medo, sem reservas, sem apegos ao passado, sem
calculismos, mas com muita confiança na ação do Espírito Santo que faz novas
todas as coisas e a todos nos renova.
Nuno Miguel Rodrigues é padre
católico, da Congregação dos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos)
Fonte: setemargens

Nenhum comentário:
Postar um comentário